segunda-feira, 8 de abril de 2013

Prosa Poética de Andréia Cunha


ANONIMATO

 

                 Anônimo  na vida e da vida. “Boa tarde, Boa Tarde”

Naquele dia seus olhos marejaram. Há muito não se sentia participante do mundo. Na condição de olhares alheios, era um invisível.

               Alguém o enxergara! E nem precisou mendigar dessa vez! Aquele sorriso angelical inundou seu dia de luz como se o sol pedisse licença para as nuvens  e não o impedissem de brilhar. Os amigos de praça também   responderam em longo comprimento de voz: taaaaaaaaaaaaaaaaarrrde”

                 Toda sua vida valeu no mundo alí.

                 Adentrou a sala na qual estavam os colegas de trabalho. Cumprimentou-os. Entretidos em seus casulos, a maioria não respondeu e, os que se dignaram, falaram entre os dentes um “tarde”  árido.

                 Cada qual em sua função fixava os olhos na atividade que deveriam exercer até o fim do dia. Tontos nos turnos. Turvos dos olhos e da alma.

Ao se uniformizar com a camiseta não se tornava. Deixava de ser o que era. Servia sorvetes mistos de um preço barato. Na    época de verão , era tal qual como a máquina que solidificava o creme  e era esparramado na casquinha. Não o percebiam, aliás nem a viam. Era apenas a  mão que entregava o objeto de desejo. Olhos tão frios quanto o creme que servia. O chão? Brilhava! Mármore de primeira. Até que foi olhada nos olhos.”Por favor, uma só de creme”... “Obrigada”

O olhar respondeu silencioso. Um contato divino foi restabelecido.

 



TEXTO DE ANDRÉIA CUNHA / SANTOS
Mirante n° 70  – ano 2010
Revista Mirante n°79 – 30 anos – Retrospectiva – página n° 80

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