ANONIMATO
Anônimo na vida e da vida. “Boa tarde, Boa Tarde”
Naquele dia seus olhos marejaram. Há muito não se sentia participante do
mundo. Na condição de olhares alheios, era um invisível.
Alguém o enxergara!
E nem precisou mendigar dessa vez! Aquele sorriso angelical inundou seu dia de
luz como se o sol pedisse licença para as nuvens e não o impedissem de brilhar. Os amigos de
praça também responderam em longo
comprimento de voz: taaaaaaaaaaaaaaaaarrrde”
Toda sua vida
valeu no mundo alí.
Adentrou a sala na
qual estavam os colegas de trabalho. Cumprimentou-os. Entretidos em seus
casulos, a maioria não respondeu e, os que se dignaram, falaram entre os dentes
um “tarde” árido.
Cada qual em sua
função fixava os olhos na atividade que deveriam exercer até o fim do dia.
Tontos nos turnos. Turvos dos olhos e da alma.
Ao se uniformizar com a camiseta não se tornava. Deixava de ser o que
era. Servia sorvetes mistos de um preço barato. Na época de verão , era tal qual como a
máquina que solidificava o creme e era
esparramado na casquinha. Não o percebiam, aliás nem a viam. Era apenas a mão que entregava o objeto de desejo. Olhos
tão frios quanto o creme que servia. O chão? Brilhava! Mármore de primeira. Até
que foi olhada nos olhos.”Por favor, uma só de creme”... “Obrigada”
O olhar respondeu silencioso. Um contato divino foi restabelecido.
TEXTO DE ANDRÉIA CUNHA / SANTOS
Mirante n° 70 – ano 2010
Revista Mirante n°79 – 30
anos – Retrospectiva – página n° 80
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