terça-feira, 2 de abril de 2013

Texto de Hilda Hilst enviado especialmente para a Revista Mirante


COMO QUEM SEMEIA...


Como quem semeia, rigoroso, os cardos
Sobre a areia, sem ver a mulher à beira- mar
Tu, meu amigo, tens os olhos fixos
De límpida vigília, e nem me vês passar.
E ficarás assim para sempre
Como se as águas estanques de uma tarde
Jamais sonhassem a aventura do mar.

E ficarás assim para sempre
Como se o oceano se obrigasse
A contornar apenas  uma  certa ilha

E eu
Faminta me desobrigasse
Da minha própria água primitiva.

Como quem semeia, rigoroso, os cardos
Sobre a areia, hei de ficar exata e coerente

Construindo o meu verso, até que a morte
Me descubra um dia, provavelmente

Como quem passeia.


HILDA HILST
TEXTO ENVIADO ESPECIALMENTE PARA A MIRANTE, ATRAVÉS DE CARTA, PELA POETA.
MIRANTE DE NOVEMBRO/DEZEMBRO DE 1983, ANO 1, NÚMERO 6.
Revista Mirante n°79  30 anos  Retrospectiva  página n° 34.

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